O “efeito-filha” no trabalho

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Imagine a seguinte situação: ele é chefe de uma grande empresa e sempre foi machista. Ou, numa hipótese mais plausível, nunca tinha atentado para as possíveis discriminações contra mulheres. Mas, agora, ele tem uma filha. Será que ter uma pequena mulher em casa faz esse homem repensar suas atitudes com o sexo feminino? Será que influencia nas suas decisões sobre as mulheres no trabalho?
Alguns pesquisadores fizeram essas perguntas e tentaram medir o que chamaram de “efeito-filha” nas empresas. Eles analisaram a diferença de salário entre homens e mulheres e correlacionaram os dados com o histórico familiar de seus presidentes. Um desses estudos rendeu recentemente reportagens no Wall Street Journal e no Financial Times.
A pesquisa analisou 12 anos de informações de centenas de milhares de funcionários em mais de 6000 empresas da Dinamarca – um país que mantém registro detalhado da mão-de-obra – e concluiu que, se o presidente tinha uma filha, a diferença de salários entre homens e mulheres caía, em média, 0,5%. Se fosse a primeira filha, a queda podia chegar a 3%. Se o presidente tivesse um filho, porém, nada mudava.
As reportagens concluem que a chegada de uma menina representava uma mudança na cabeça de quem dirige as empresas. Depois do nascimento de uma filha, esses executivos ficariam mais atentos à questão do gênero.
Mas, segundo Jeanine Prime, diretora da Catalyst, uma instituição que pesquisa a participação das mulheres no mercado de trabalho, o “efeito-filha” pode estar superestimado. Isso porque a diferença só é estatisticamente significativa para empresas pequenas, que empregam de 10 a 50 funcionários. Isso talvez queira dizer que o nascimento de uma menina pode afetar a política de remuneração de uma empresa que é basicamente controlada por uma só pessoa. Nas companhias maiores, porém, onde as decisões são mais institucionalizadas, o efeito é diluído, quando existe.
Para Jeanine, o fato de um homem ter uma filha é realmente transformador. Mas isso não quer dizer que essa mudança tem algum efeito dentro das empresas. Se assim fosse, diz ela, há muito tempo já não haveria diferença salarial entre homens e mulheres. Nos Estados Unidos, para cada dólar ganho pelo homem, a mulher, num mesmo cargo, ganha 77 centavos. No Brasil, a diferença é um pouco maior: para cada real ganho por um homem, uma mulher ganha 60 centavos.
Eu nunca tinha parado para pensar em como ter uma filha pode alterar a percepção de um homem sobre as mulheres – seja no trabalho ou na vida pessoal –, mas faz sentido. É uma questão interessante e gostaria de saber o que vocês acham:
Pais, a sua visão das mulheres mudou depois de ter uma filha?
Mães, vocês acham que a percepção de seus parceiros mudou depois do nascimento de uma menininha?
Letícia Sorg é repórter especial de ÉPOCA em São Paulo.

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